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Psicologia Militar: Panorama Atual

Publicado em : 17/02/2017

Autor : Marcos Aguiar de Souza*

À medida que se desenvolve, é natural que uma área do conhecimento passe a a contar com várias subdivisões. Em muitos casos, o desenvolvimento da área é tanto que passa a dar origem a áreas específicas.

No caso da Psicologia, é cedo para se afirmar sobre a existência de uma psicologia brasileira. Mas adequado, talvez, seja falar de influências recebidas a partir da prática desenvolvida em diversos países. Considerando como exemplo a psicologia social, no Brasil houve claramente uma forte influência da psicologia estadunidense. Uma psicologia social “psicológica”, voltada para processos intra e interindividuais. Atualmente, tem ganhado relevância o estudo da psicologia social “sociológica” de influência europeia, com direcionamento das investigações para processos grupais e sociais.

Existem, entretanto, áreas que têm seu desenvolvimento dificultado devido a falta de organização. No caso específico dos Estados Unidos, a Associação de Psicologia Americana (APA – American Psychological Association), por exemplo, conta atualmente com 56 divisões. São 56 áreas de especialização da Psicologia, que congregam pesquisadores e profissionais interessados em garantir o desenvolvimento e estabelecer diretrizes para a especialidade da Psicologia.

A análise de tais especialidades revela que, comparativamente à APA, no Brasil diversas áreas não estão ainda reconhecidas/organizadas, como é o caso das divisões 19 (Psicologia Militar), 51 (Estudos do homem e da masculinidade) e 56 (Psicologia do Trauma). Na verdade, não existe no Brasil um órgão que atue no sentido da APA, buscando a organização científica da Psicologia. É uma lacuna importante que precisa ser analisada.

De particular interesse para a discussão proposta é a Divisão 19 – que conta com uma Sociedade de Psicologia Militar. Conforme consta no site da APA, esta Divisão tem como objetivo encorajar a pesquisa e a aplicação da pesquisa psicológica para os problemas militares. Seus membros são psicólogos atuando em contextos militares (civis e militares) que trabalham em diferentes funções em ambientes que incluem atividades de pesquisa, gestão, serviços de saúde mental, ensino, consultoria, comitês políticos e apoio a comandantes militares. Assim, virtualmente, qualquer especialidade da Psicologia pode ter atividades desenvolvidas em contextos militares.

Apesar de diferentes estatísticas que apresentam diferenças quando relatam o número de militares que compõem as Forças Armadas (Marinha, Exército e Aeronáutica), contando com as Forças Auxiliares (Policiais Militares e Corpo de Bombeiros) no Brasil, acrescentando-se as famílias desses militares e aqueles que prestam serviço militar obrigatório anualmente, é possível considerar que existem milhões de cidadãos brasileiros que seriam beneficiados pelo avanço da área. Certamente é possível considerar que as Forças Militares são as maiores empregadoras no Brasil.

A despeito de críticas ou mesmo de resistências que possam existir ao desenvolvimento do trabalho do psicólogo militar, tem sido cada vez mais reconhecida a necessidade de desenvolvimento da área no Brasil. Certamente há um entendimento de que precisamos de uma maior contribuição do setor militar para a segurança da sociedade. Estamos então falando de militares capazes de cumprirem suas funções constitucionais com maior eficiência, menor sofrimento pessoal e de seus familiares e, portanto, com maior retorno à sociedade.

Infelizmente ao se falar de Psicologia Militar, ainda se encontra por parte de estudantes e profissionais muitas avaliações negativas, algumas diretas que serviriam para bons exemplos em estudos sobre preconceito e discriminação, outras polidas como “não é o melhor dos temas”. Apesar disso, muitos dos estudantes buscam em contextos militares a primeira forma de atuação profissional.

A busca em publicações na literatura especializada revela um grupo de psicólogos que vêm se esforçando para a organização da área. Um dos argumentos que têm estimulado o trabalho desses profissionais é justamente as críticas que tem sido feitas à atuação militar em seus diferentes campos. E, se existem contribuições possíveis em termos de recrutamento, seleção, treinamento, atendimento clínico e pesquisa, para citar algumas das diversas possibilidades, é função social da Psicologia dar sua contribuição para uma área diretamente relacionada à Segurança Nacional e a saúde e bem estar da população.

Finalizando, o avanço no que se refere à atuação das Forcas Militares no sentido de atendimento à finalidade constitucional para a qual foram criadas está na aproximação entre civis e militares. As organizações militares e a sociedade civil devem estar, e de fato estão, em um mesmo plano. É preciso romper essa dicotomia, que tem gerado as tão citadas profecias auto realizadoras, vistas em áreas como a educação. Se há críticas, há espaço para contribuições.

 

*Atua como professor permanente nos Programas de Pós Graduação em Psicologia da UFRJ e da UFRRJ - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Participa do GT da ANPEPP Cultura e Saúde nas organizações. Tem interesse em técnicas de coleta e análise de dados, Construção e validação de instrumentos de medida e em Psicologia Organizacional e do Trabalho, particularmente no que se refere a investigações envolvendo psicologia em contextos de atuação militar e de segurança pública. Atualmente é membro Diretoria da Sociedade Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho. Contatos: marcos.aguiar@pq.cnpq.br.

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